Dinis,
quando leres estas palavras, terás já idade para saber que o teu tio era um homem mau. Um homem asfixiado pelo peso da existência.E ninguém te conseguirá explicar o porquê das histórias que ouvirás sobre mim. Vão usar o álcool, as drogas e lapsos de insanidade momentânea como desculpa. Não acredites em nada disso.
Poderás, eventualmente, conseguir disfarçar-te por entre os outros. Aliás, espero que acabes burro, a gostar de futebol, casado e com idas ocasionais às putas. Faz como o teu avô João e talvez resulte. Mas não sigas o meu caminho. Pertenço aos que acabam com um tiro nos cornos ou mortos de overdose numa qualquer poça de vómito, num qualquer quarto, sem rigorosamente ninguém para contar a história.
Escrevo-te, acima de tudo, para te dar uma má notícia. Recordas a tua infância até ao momento que os teus pais se separaram? Como já sabes, as coisas pioraram a partir daí. E a má notícia que te trago é que vão continuar a piorar. Vais, evidentemente, dar umas gargalhadas e viver uns dias que te irão saber bem. Mas faças o que fizeres, não escaparás à merda que és.
Tu, e todos os outros. É a relação com essa merda que vai decidir o que serás. É, creio, esse o principal modulador de personalidades. Vais encontrar Bejamins que te querem roubar a bola no recreio. Vais pegar-lhe na cabeça e espeta-la contra o chão, até que o Bejamin comece a gritar. Vais encontrar todo o tipo de mulheres em ponto pequeno. Umas que irão colmatar o medo de ficar sozinhas com roupa que não fica bem a ninguém, outras que após a primeira foda te querem como marido. Isto enquanto adolescente, depois, só piora. Mas já lá vamos.
Aproveita cada saída à noite, as primeiras que o meu irmão te deixar fazer. Ainda hoje recordo a minha primeira noite fora. Uma noite de S. João com a Cláudia, de quem nunca gostei mas que me ensinou algumas das mais valiosas lições até hoje. Aproveita as faltas às aulas para ires para a casa dos colegas, para a tua ou mesmo para ires tomar um café à baixa. Garanto-te que serão algumas das poucas memórias que irás guardar até ao fim dos teus dias.
Experimenta tudo com cuidado. O tio nem sempre o fez e não raras vezes acordou em bancos de jardim em sítios que nunca tinha visto. É uma merda pelos inconvenientes óbvios, e ainda, porque apanhas pulgas.
Ah, vais achar que estás apaixonado, mas isso passa-te.
Não tenhas filhos e espalha a inutilidade total de o fazer. Somos um vírus, reproduzir-nos é o pior acto que poderemos cometer.
A partir do fim da tua adolescência, estás proibido de namorar com raparigas mais novas do que tu. Todas elas acham maravilhoso namorar com gajos mais velhos, e depois fodem-se. Acabam, sempre, frustradas e com uma série de problemas. Não contribuas para isso. O tio tem especial asco a idiotas como o Alexandre, que – como o tio viu – não sabem foder com mulheres a sério, tendo que recorrer a adolescentes. Aliás, isto acontece muito. Não havendo formação e um real desejo de foder em condições, dificilmente consegues um orgasmo feminino sem língua. O tio consegui-o fazer exemplarmente durante muitos anos até a droga começar a fazer das suas e os meus pulmões falharam quando tinham demasiado esforço.
E muito menos faltes ao que acreditas realmente por um pedaço de cú. Os cús são feios, e se tiveres a minha infelicidade, irás encontrar alguns com pêlos e que te irão deixar a pila com pedaços de merda. Não queiras isso, que para além de ser pouco higiénico, pode causar doenças. Se fores homosexual, bom, nesse caso habituas-te.
Outra coisa importante; pensa muitíssimo bem o que queres fazer com os teus anos de vida. Sempre com a noção que a qualquer momento levas com um carro em cima, e sentes a chapa a desfazer-te a carne. Pensa, e pensa. Duvido que tires algum tipo de curso, não porque sejas burro, que o tio também não o é, mas simplesmente saberás viver a tua adolescência e os estudos irão para o caralho. E isso nem sempre é mau.
Tudo depende do que venhas a desejar para ti. A minha sugestão é que penses com a razão. Uma das coisas mais eficazes que podes fazer para reduzir a miséria inerente ao existir é não trabalhares. Ou trabalhares em algo que gostes mesmo, mesmo, mesmo muito. Nunca escolhas o caminho mais difícil só para provar algo a seja quem for. Daqui a uns anos todos estarão mortos e toda a gente vai esquecer esse teu acto de bravura. E quem se fode, és tu.
A tua mãe é uma cabra. Não gostes dela.
E creio que é tudo. Trata de não ficares viciado em nada. Não queiras saber como nem onde morri. Se leres isto, ainda tive tempo de te entregar isto da forma que agora te faz rir, e isso é o mais importante.
Vês como ler é fixe?
Aires