Marcel Winatschek's Tokyopunk
eulogismos | carne | expurgações | reflexos | fim

A Imagem Mal Dita 18.06.

Está quase tudo pronto. Desafiei os Deuses. Tive uma ajuda impiadosa, das montanhas. Muito em breve, o prenúncio da Ruína. Por agora, a capa.

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Ruído 14.06.

Tenho um zumbido no ouvido esquerdo.

Veio da minha caixa, onde guardo os químicos,
em barras de expansão mental, sempre fulcral,
nos dias tóxicos que atravessam as minhas paredes.

E com eles, veem os vultos, em convulsões
de prenúncios de destinos por cumprir.
E aquela que se vem queixar, pelos maus,
que não a deixaram partir, em pedaços,
digo-lhe que se foda, pois não serei eu,
especialmente eu, a salvação.

E quando rodeado de químicos e etílicos goles,
em água que arde, inicio a viagem;
marcho como quem caminha com destino,
corro até cair, com a bentas no chão,
onde esmurro até sentir dores no estômago,
com a raiva que o ruído exige, imperativamente.

Final da mente.

Corro sem direcção, com a urgência do vão. Rápido como o ruído, corro urgente, sem ver carros nem gente, corro, corro mais. O sangue desfaz-me os orgãos. E eu sem parar, sem o ar que me seria essencial, não fosse o ruído. O ruído… O ruído roí a rolha da garrafa do rei da Rússia, e o rei caga-se tudo quando bebe sem perceber que a rolha estava ruída pelo ruído que … que…

Finalmente…

Tudo caí… sem a velocidade que a realidade quer.
O desmoronamento que só causa o som… ínfimo…
ruído…
E de um precipício a queda, forma a ruína,
em ruído no ouvido esquerdo.
Fedo de dores, contorço-me, em medo do zumbido.
O puto do ruído… corre-me pela carne,
e nada fica de pé.

Falo-vos de um ruído como os que se vêm
no olhar dos que se deixam filmar pelas câmaras de segurança
enquanto empunham uma arma de fogo e ferro na escola.
Mas também do ruído do velho que, durante a noite,
se levanta com dificuldades em mijar a urina de cor avermelhada,
enquanto odeia um pouco mais a idade.
Falo-vos do ruído que ouvem as mulheres, enquanto pensam
no quanto poderia ser melhor não ter casado com um peludo
que pensa que quanto mais forte chocar ambos os quadris melhor.
Falo-vos no espelho em que se reflecte o ruído,
na imagem de um rosto envergonhado pelo o corpo manchado,
de merdas dos violadores que não se ficaram só pelo telemóvel.

Engano! Isto é puro e anárquico vandalismo.
Cinismo do forte e feio, e, creio, dar-vos más notícias.
Não, não são fictícias as más novas da permanência do ruído.
Mesmo depois de tudo isto, tu não queres realmente saber,
do que, efectivamente, o ruído faz doer.
Mas eu compreendo. E mesmo que corra, ele aproxima-se,
e triunfa.
A conclusão? Eu, estou bem fodido, com este mal dito ruído.

Os Novos Tempos 05.06.

Sinto-me como, provavelmente, se sentiram os junkies dos sessenta, nos fins dos setenta. Os meus heróis que anarquisticamente procuravam a liberdade, sentam-se agora, confortavelmente, em tronos de comodismo. Vencidos pelo cansaço, quem sabe.

Receio os dias que veem. Não lhes vejo sorrisos, nem momentos de história. Só sombras de um tédio mais doente que o costume. Deixo acumular tudo, numa pilha de “vamos ver o que isto dá”. Mas estou preocupado, a sério que estou. Simplesmente, não faço nada para evitar o fundo. Vou só espreitar.

Vou só espreitar.

Simetria 17.05.

Sinto falta das peles, esticadas e esmagadas por batidas em forma de evocação. Pretendo somente a energia suficiente para as cordas manipularem a electricidade, fazendo-a mutar-se por entre o ar. Pretendo o eco de uma sala pequena para que por entre o fumo as palavras saiam melhores.

envelhecer 10.05.

Hoje, algures num shopping - que belo lugar para me encontrar - um homem, velho, senta-se quase deitado num sofá para todos de modo a estar sozinho. Respira rápido e tem as mãos na cabeça. Não diz uma única palavra. “perguntamos se está bem?” Eu digo que ainda não. E observo. Estou perto, incomodado. Mais incomodado ainda com os que passam e sorriem ao pensar que o homem dorme simplesmente uma sesta. Ele recupera o folêgo. Levanta-se, sente-me o olhar e vira-se, e olha-me. Não mudo a minha expressão e ele continua, o seu passeio, provavelmente como o médico recomendou.

Não foi hoje.