Acordo, de ligeira ressaca, com poucas horas de sono. Um parto nunca será fácil.
Ontem passeei com a única companhia que interessa, pelo Porto. Estacionei perto da Ribeira. Descemos para a praça inebriada de sol e com o cheiro a douro e cerveja. Turistas fascinados, casais improváveis e meia dúzia de pedintes para jamais deixar esquecer.
Decidimos atravessar a ponte, voar sobre o rio, sem que se note muito. Um bêbado, perde o controlo ao longo das escadas, e cai. Mais tarde reflecti sobre a minha indiferença. Ao cair, fez um som seco. E abriu de imediato a cabeça. Havia sangue! As pessoas, curiosas mas não muito interessadas em ajudar, fizeram um círculo. “Parece o texto que escreveste há pouco tempo, o «Quinto Príncipio»”.
Passei a ponte, sabendo-o socorrido em breve. Já em Gaia, mais turistas e preços demasiado altos para comer qualquer coisa. Um cigarro com fome enquanto, na outra margem, duas ambulâncias socorriam o homem. Não tive pena. Não tive nada. Absorvi apenas aquele embate como se fosse meu.
Pensei seriamente sobre o dia em que vou morrer. E decidimos voltar ao Porto, a pé, comer qualquer coisa.
Ao andar, senti o desgaste deste corpo, tão recente, tão gasto. Calquei as mesmas ruas que havia já calcado em dias como aquele. Embora com menos sol.
A cidade respira como nenhuma outra. O Porto tem algo de muito especial, por entre o caos dos carros, os carteiristas, os estudantes em festa sem pensarem no desemprego, alguém que chora disfarçadamente num café, sabendo as palavras “acabou tudo” como certas. Os engraixadores que fumam um português suave amarelo e os miúdos a descobrirem o fascinio da liberdade de sairem sozinhos de autocarro até à hora de jantar, em que têm de estar em casa com um sorriso no rosto.
Ou o café onde gosto de ir, porque o empregado atende-me como gosto de ser atendido no Porto. “Cafézinho?”. “Curto, não é verdade?”. “Ora essa, obrigado eu”. “Bom apetite”.
E troco um olhar com um pedinte. Ele pensa que poderá vir pedir-me dinheiro porque me sabe a olhá-lho quando torce a expressão em dores. Em fome. Mas olha-me mais e sabe porque o olho. Sabe perfeitamente o que me vai no olhar, como ninguém o poderia fazer.
Regressamos, agora no carro velho mas pago. Sabendo aquela uma tarde especial. E penso no Axel. Nas saudades que lhe tenho, na falta que me faz.
E hoje, no meu aniversário, passado sozinho, ouço as músicas que mais me dizem. Vou fazer a barba, tomar banho e vestir a minha roupa mais ajustável. À noite não estarei sozinho.
Sinto-me, deveras, miserável e só me apetece dançar.
Tenho passado muitas horas em frente ao espelho, a seco e a alucionogéneos. Não me faz nada bem, mas permite-me a distância suficiente de mim para ver o que vai cá dentro. A tragédia sem coros de saber que nunca vai mudar, que o menos será eterno. Que tudo aquilo que me faz mal será o que irei colocar no corpo, com mais frequência e pressa.
Disse há dois dias que sentia o sentir esgotado. Que não poderia sentir nada daquilo que queria na situação actual. O Porto fez-me perceber que estava errado.
E apesar de o menos nunca passar, de eu ser bem mais fácil de odiar que qualquer outra coisa, continuo de pé, com as minhas magnum e umas calças velhas. E com um casaco novo. Com uma ténue esperança de ver as coisas melhorarem, não demasiado, apenas o suficiente para existirem dias em que sorrio, e outros que não. Hoje, sorrio.
