Não é sempre,
mas há dias em que gostava de puxar pelo cabelo, sem demasiada força, do desconhecido mais próximo e enfiar-lhe uma bala nos cornos. Deixar que o sangue se espalhasse pelo rosto e ir assim, no caminho de casa, despertando olhares curiosos pelos que passam.
Eu sei berrar mais alto que tu.
Gostava, efectivamente, de me sentar na minha lareira, apagada, enquanto bebia uma arguardente e desviava os pedaços de carne e osso dos lábios. E pensar que se o desconhecido tinha SIDA, eu estaria bem fodido. Em todo o caso, limitar-me-ia a beber enquanto comtemplava o belíssimo céu que haveria de trazer, hoje, algum tipo de emoção que não o tédio constante e absoluto.
Eu tenho a melhor voz, mas não me apetece gastá-la convosco. Erguer-vos o dedo dá-me demasiado trabalho.
Gostava realmente que a Ana Gomes, minha colega no trabalho diário fosse baleada nos cornos. Só porque a sua voz me irrita de morte. O marido já lhe bateu, bastante. E isso reflecte-se no riso triste. Sim, existe um riso triste. E não lhe sinto pena pela miséria que é, pelo gasto absurdo de oxigénio sem qualquer tipo de proveito para a humanidade. Tem uma filha do tal agressor. Já imagino que a merda da criança saia o reflexo da mãe e seja mais uma idiota com o coração vazio e a barriga cheia.
Um dia deixo de falar, só para ver quanto tempo me aguento mudo.
