- Tens pensado no passado, para que prepares o presente, garantindo, claro está, o futuro?
- Tenho, efectivamente, pensado. Porém, não vejo futuro algum. Nem estou, sequer, preocupado com isso. Vou somente absorvendo os dias, e registando o que de mais importante deles surge.
- Já nada te desperta a vontade, a Fome?
- A Fome existirá constantemente até que o tédio a vença, disso restam-me poucas dúvidas. Estou cá para fazer a batalha entre ambos algo digno de uma Epopéia. Mas o monstro social, sempre real, impele a um ganho, para um forçoso gasto, num quase controlado existir. Acredito, como sabes, acima de tudo, no Poder. E actualmente, estamos quase todos dispostos sobre esse poder. A mãe-natura estabeleceu a regra, e não há como lhe fugir, apenas tornarmo-nos poderosos o suficiente.
- E tens interesse nesse poder? Queres alcançar o topo da pirâmide?
- Ah, não. Isso está reservado aos que estão reservados muito antes de existirem, quaisquer reservas. Eu cá prefiro a descoberta de novas terras durante o dia e a electricidade nas guitarras durante a noite.
- Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll?
- Não faço a menor ideia. Sentir, acima de tudo. Sou das terras sem ninguém do interior do meu Portugal, das ruas sempre escuras ou simplesmente cinzentas das grandes cidades. Sou o que gosta de falar sobre Ditirambos com velhos pastores, o tipo esquartejado que alguém encontra em cima de um palco, numa noite, por um acaso. Sou uma série de coisas, com fraca apetidão para seguir os outros.
- Mas os outros têm importância…
- Tem dias. Dias em que todos me parecem bonitos, dias em que só uma me parece bonita e dias em que gostaria de, com as próprias mãos, arrancar a garganta a todos eles. Mas só eu interesso por muito que de os outros dependa, porque afinal, estou condenado a mim mesmo, não é verdade?
- Desiludido com o caminho até agora percorrido?
- Poderia ter sido bem melhor. Mas é precisamente por isso que ainda estou por cá, para que não tenha grandes problemas no dia em que subir à montanha.
- Que dia é esse?
- O dia em que darei um estalo aquele idiota por nunca mais ter descido dela. Hum, não, não. O dia em que, na hora marcada pelo sol, eu termino solenemente com tudo.
..parece a minha mente a falar.