Pinto-me de negro
com a mesma graxa das botas que já não engraxo.
Sou traficante de problemáticas,
atirador furtivo, sempre bem escondido.
Vomito preces e premonições,
longas e desconexas negras orações.
Ouço os momentos mais dolorosos,
as raivas mais escondidas,
aquele momento que não gostas,
aquela peça de roupa que nunca mais irás vestir;
tinha-lá no dia em que tudo aconteceu.
Expurgação!
Os sons distorcidos, estes gritos,
gemidos mal-fingidos.
O não querer repetir o erro,
metê-lo pelo nariz a 120km hora!
Sabes bem, que tudo irá, acabar mal.
Mas finges que não.
Só aqui, no negro, podes deixar as máscaras
no chão, sem fundo.
É sempre no negro dos segundos antes de adormeceres
que a aranha do pensamento te tece o abismo de ser.
E nesse fim de dia, pensarás no que arrancou os olhos
para nunca mais se ver.