Preciso de seis dias sem falar.
Dentro de três paredes,
de olhos virados para dentro.
Com gosto na minha magreza,
enfeitiçado pela minha falta de banho.
Bom, mas isto que um dia será acabado, não deixa de ser um curioso reflexo da minha vontade maior. Desligar(-me) das máquinas, seguir em direcção ao interior e beber sozinho durante seis dias. Depois ia ter com o Rui, para beber as garrafas de borba que faltam. O Zé também vinha. Beber, rir e atear fogo a merdas. Coisas d’homens.
Pensa comigo, par d’olhos que comando; se morrermos os dois, faz de conta, amanhã, terá o dia de hoje valido, efectivamente, a pena? Eu cá acho que não. E quando este pensamento se prolonga por dias, semanas e todas as unidades de medidas temporais que tu sabes que se seguem, pior ainda.
Passaram-se, agora, anos desde que dancei semi-nu ao pé de um mar gelado, coberto de um manto branco empoeirado e VAT 69. Passaram-se anos desde que saquei os dedos em forma de pistola, e ameacei o gangue com bafo a litros de merda que bebi. Alguém me puxou pelo o braço. Passaram-se semanas em que bebi as minhas 15 cervejas e acabei a vomitar todo um dia de trabalho do meu fígado. Já não sei o que é dormir em lençois cobertos de vómito. Cheira bem, pelo amanhecer, que era sempre ao fim da tarde.
Agora vejo uma apresentadora de curvas insinuosas – já te falei dela, dá dinheiro por palavras – e ouço a “Taste In Men”, enquanto organizo, apago, mudo de nome e de local fotografias, textos e vídeos.
Percebi hoje o problema dos velhos. A nostalgia, nessa idade, é insuportável. Nem sequer consequem apreciar o mijo matinal, sem sangue, porque estão a recordar quando mijavam, antigamente. Aterrador, não achas?