
Julie Crozat

Julie Crozat
Há roupas, no chão.
E poucas são as cartas,
não espalhadas,
no jogo de lâminas semi-afiadas.
No espelho, florescem imagens,
longas e curtas metragens sem peso
ou medida entretida pelo som.
Somente tecidos já secos,
entre o passar das horas.
Atenção!
Alguém a baixo da cama,
mulher ao mar!, de um conto
para não encantar.
Comprei o «Festim Nú» a 3 euros no Jumbo. Está em cima da mesa pequena que não serve para muito mais do que magoar os meus joelhos quando passo às escuras. Mas tem uma capa que me agrada particularmente. Quanto a lê-lo, ou relê-lo, bom, isso é toda uma outra história (com h, que não gosto de modernices).
Seria praticamente vergonhoso dizer há quanto tempo não leio um livro. Mas o mais interessante é quanto isso pouco me importa.
Fossem outros os tempos, e estaria desesperado ao saber que haviam passado três meses desde que fiz algo de, efectivamente, produtivo. Mais ainda ao saber o número infindo de páginas escritas sem a sua conclusão, retorsão ou imaginação final.
Ao ter bebido uma garrafa de Porta da Ravessa (tão bom quanto o Borba e mais barato), senti ao de leve o inevitável peso do riso em frente ao mar. Penso agora em todos os dias em que lá estive, só ou acompanhado. Não deixo de sorrir ao perceber agora que nunca os que me acompanharam em frente ao mar, durante a noite, o esqueceram.
Mas é, principalmente, sobre esquecimento que te quero falar hoje, nesta noite furtiva. Digamos, porque mais uma alegoria nunca é demais, que tenho já centenas – ah sim, passam as dezenas – de folhas prontas. Nelas cabem textos, sons, vozes, imagens e até vídeos, embora quanto a estes dois últimos queira fazer bem mais. E sabes o que torna tudo mais interessante? Não os mostrei a ninguém. E nem sequer tenho planos para tal. Aliás, estou neste preciso momento a ouvir um disco que fiz e que nunca mostrei a ninguém. Venci os meus eulogismos. E mesmo que a vitória seja registada neste pequeno e branco espaço onde já ninguém vem, não poderia ser melhor, a minha alegria da caverna.
Há, num demasiado velho sofá, uma mulher deitada. Exausta, cansada de tanto vomitar, sucumbiu, finalmente, ao sono. Da televisão ecoa a voz de uma tipa que oferece dinheiro por palavras. Brincos da Parfois e o pior que a Mango tem para oferecer no que a vestuário diz respeito.
Eu tenho a garganta seca, e sinto uma pontada nas costas. Ah sim, tinha referido costelas mas somente para relembrar o meu caro JC. Sei agora a verdade sobre o não comer carne neste dia. Dá vómitos.
Bom… penso sobre tempos que passaram, noites neste mesmo local. Em nenhuma delas me recordo de ter a garganta tão seca, mas enfim. Sugiro-vos que executem todas as aplicações nesse vosso computador e, à minha semelhança, assistam com um sorriso intrigado ao bloqueio, porque não destruição, do sistema. Ele falha, continuamente. O erro, é uma constante da… hum, é isso, é isso.
- Tens pensado no passado, para que prepares o presente, garantindo, claro está, o futuro?
- Tenho, efectivamente, pensado. Porém, não vejo futuro algum. Nem estou, sequer, preocupado com isso. Vou somente absorvendo os dias, e registando o que de mais importante deles surge.
- Já nada te desperta a vontade, a Fome?
- A Fome existirá constantemente até que o tédio a vença, disso restam-me poucas dúvidas. Estou cá para fazer a batalha entre ambos algo digno de uma Epopéia. Mas o monstro social, sempre real, impele a um ganho, para um forçoso gasto, num quase controlado existir. Acredito, como sabes, acima de tudo, no Poder. E actualmente, estamos quase todos dispostos sobre esse poder. A mãe-natura estabeleceu a regra, e não há como lhe fugir, apenas tornarmo-nos poderosos o suficiente.
- E tens interesse nesse poder? Queres alcançar o topo da pirâmide?
- Ah, não. Isso está reservado aos que estão reservados muito antes de existirem, quaisquer reservas. Eu cá prefiro a descoberta de novas terras durante o dia e a electricidade nas guitarras durante a noite.
- Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll?
- Não faço a menor ideia. Sentir, acima de tudo. Sou das terras sem ninguém do interior do meu Portugal, das ruas sempre escuras ou simplesmente cinzentas das grandes cidades. Sou o que gosta de falar sobre Ditirambos com velhos pastores, o tipo esquartejado que alguém encontra em cima de um palco, numa noite, por um acaso. Sou uma série de coisas, com fraca apetidão para seguir os outros.
- Mas os outros têm importância…
- Tem dias. Dias em que todos me parecem bonitos, dias em que só uma me parece bonita e dias em que gostaria de, com as próprias mãos, arrancar a garganta a todos eles. Mas só eu interesso por muito que de os outros dependa, porque afinal, estou condenado a mim mesmo, não é verdade?
- Desiludido com o caminho até agora percorrido?
- Poderia ter sido bem melhor. Mas é precisamente por isso que ainda estou por cá, para que não tenha grandes problemas no dia em que subir à montanha.
- Que dia é esse?
- O dia em que darei um estalo aquele idiota por nunca mais ter descido dela. Hum, não, não. O dia em que, na hora marcada pelo sol, eu termino solenemente com tudo.