Archive for May, 2008

Lábiorintos

Saturday, May 31st, 2008

Vejo todos os meus velhos companheiros ainda mais envelhecidos do que alguma vez esperei ver. Estão perfurados, esburacados por balas de tédio disparadas de canos sujos de uma DDV 6. Sinto-os conformados, cansados de festejar por motivo algum e sem qualquer vontade de afogar as mágoas que resultam da falta desta. Estão mortos, e caminham, ainda.

Penso-os com verdadeiro desgosto enquanto fumo o único cigarro, com um gosto amargo a ter que ser, efectivamente, o último. Amanhã acorda-se cedo.

Estou tão, talvez mais, podre do que eles. E agora, começo a importar-me. Começo a não querer o contemplar reflectivo das ruínas, mas antes a destruição de tudo, até que tudo fique ruínas para eu contemplar e reiniciar o círculo uma e outra vez.

Negro

Thursday, May 15th, 2008

Pinto-me de negro
com a mesma graxa das botas que já não engraxo.

Sou traficante de problemáticas,
atirador furtivo, sempre bem escondido.
Vomito preces e premonições,
longas e desconexas negras orações.

Ouço os momentos mais dolorosos,
as raivas mais escondidas,
aquele momento que não gostas,
aquela peça de roupa que nunca mais irás vestir;
tinha-lá no dia em que tudo aconteceu.

Expurgação!

Os sons distorcidos, estes gritos,
gemidos mal-fingidos.
O não querer repetir o erro,
metê-lo pelo nariz a 120km hora!

Sabes bem, que tudo irá, acabar mal.
Mas finges que não.
Só aqui, no negro, podes deixar as máscaras
no chão, sem fundo.

É sempre no negro dos segundos antes de adormeceres
que a aranha do pensamento te tece o abismo de ser.
E nesse fim de dia, pensarás no que arrancou os olhos
para nunca mais se ver.

A Grande Casa, Vazia

Tuesday, May 13th, 2008

Num campo onde a noite cai sem cerimónias,
uma casa grande permanece, vazia.
Nela jaz uma senhora velha com cancro,
que mesmo antes de morrer, nada sentia.

Enquanto uma rapariga dorme de boca entreaberta por ter o nariz tapado com o meu fumo, penso que é já impossível recolher todas as folhas que já escrevi. Muitas delas irão ficar, por aqui, perdidas, quando a curta e longa viagem além-rio acontecer.

Talvez Gaia não seja assim tão má, afinal, sempre se pode apreciar melhor o Porto.

E interrompo a corrente de pensamentos para pensar na dificuldade em pensar que as minhas dores-de-cabeça me causam. São elas e o filho da puta do pássaro que não se cala. Deve ser uma coruja, ou um mocho.
Há trabalho a fazer, para esta e outras noites. O resultado será uma venenosa, mais sempre eterna, Serpente.

ps: Passaram-se meses desde que fui pela última vez ao cinema. Temos que resolver isso.

Procura-se: 25 Anos, Louro, Culto, Tenrinho

Wednesday, May 7th, 2008

Segundo sei, inseria tubos de vidro. Aqueles tubos finos, pela abertura da uretra, dos rapazes que raptava, batendo-lhes depois com um martelo, até que os tubos de vidro se desfizessem, de forma a que o vidro se espalhasse e fizesse o seu trabalho.

Era 2.2

Saturday, May 3rd, 2008

Há menos brilho nos dias, repletos de demasiada luz. Humidade podre, abafada pelo calor de um sol doente. Esqueci os poetas e a sua falsa esperança de sentir utopias, abafei com dois socos a vontade de ser mais.

Ergo, orgulhosamente, a cabeça de carneiro mal-morto, a tresandar a lobo. Estou, no fundo, pronto a encarar o matadouro, como porco limpo que sou. Que se foda a lógica, que se foda a sempre certa racionalidade. Uma nova, suja e doente Era.

E agora que cessem as promessas, as previsões e se iniciem as nunca-vistas maldições. Esta, garanto-vos, será uma era governada, sensatamente, pelo caos.


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