Sinto falta das peles, esticadas e esmagadas por batidas em forma de evocação. Pretendo somente a energia suficiente para as cordas manipularem a electricidade, fazendo-a mutar-se por entre o ar. Pretendo o eco de uma sala pequena para que por entre o fumo as palavras saiam melhores.
Archive for May, 2009
Simetria
Sunday, May 17th, 2009envelhecer
Sunday, May 10th, 2009Hoje, algures num shopping – que belo lugar para me encontrar – um homem, velho, senta-se quase deitado num sofá para todos de modo a estar sozinho. Respira rápido e tem as mãos na cabeça. Não diz uma única palavra. “perguntamos se está bem?” Eu digo que ainda não. E observo. Estou perto, incomodado. Mais incomodado ainda com os que passam e sorriem ao pensar que o homem dorme simplesmente uma sesta. Ele recupera o folêgo. Levanta-se, sente-me o olhar e vira-se, e olha-me. Não mudo a minha expressão e ele continua, o seu passeio, provavelmente como o médico recomendou.
Não foi hoje.
Imaculado
Wednesday, May 6th, 2009Resumidamente, as pessoas, ou os outros, são um dos dilemas que mais me assombram. Se, por vezes, o extermínio em massa não fosse mal-pensado, o simples facto do ser humano poder chamar-se de antihumanista (ou a designação que preferirem) é deliciosamente interessante.
Mas facto é que são já muito poucos os seres que merecem o meu respeito e, em especial, a minha admiração. Perfeitamente relacionado com um savoir-faire não tão treinado quanto isso, tenho tendência a considerar artistas invulgares mais interessantes que os comuns carneiros – e tão felizes que são. Mas não raras vezes vi egos e estupidez geral sujar uma perspectiva bastante original.
Eu, assumidamente um homem do interior forçado pelas condições da existência a viver na melhor cidade possível, revejo-me na clareza de espírito, no olhar de quem cresceu a ver o sol pôr-se em montanhas ao invés de varandas e antenas de televisão.
Tudo isto para te dizer que conheci alguém que ainda não vi pessoalmente mas pelo qual nutro a mais sincera admiração. Alguém que poderia perfeitamente utilizar o seu estatuto para ser mais um. Alguém que manteve, durante anos uma paixão pela música, pela arte. Ou se preferires sem poetismos, alguém que gastou dinheiro suado ao segundo para organizar eventos sem apoios estatais e só teve prejuízo monetário. Alguém que tem a mesma guitarra há anos. Alguém que tem duas das bandas mais flamejantemente apregoadas em países tão díspares como os Estados Unidos ou México, e que por cá – arrisco-me a um “felizmente” – mais desconhecidas.
Alguém que ao ler isto irá pensar que não é nem fez tudo o que vos descrevo.
Em suma, precisei de registar este orgulho que tenho numa das poucas pessoas que valem a pena conhecer.
É um facto que não precisas de conhecer de quem te falo, mas é imperativo, essencial como o respirar, ouvir o seu “novo” projecto, convenientemente chamado MACULA. Não é fácil, não se digere confortavelmente. Não é sequer inovador ou vanguardista. Mas é algo que me faz sentir, em oito minutos, que se repetem por noites a fio, uma tempestade de imagens, como se dentro do Sanatório das Penhas da Saúde, fosse atravessado pela energia que só emana das pedras, gélidas, de Portugal.
Está disponível um “promo-track” para 100 downloads gratuitos no site de MACULA. Por favor, por ti; faz o download e ouve, apenas e só, no conforto do escuro. Estou certo que irás sentir algo diferente.
23
Tuesday, May 5th, 2009gramas. E 5 horas de sono.
Ontem, 2 de Maio
Sunday, May 3rd, 2009Acordo, de ligeira ressaca, com poucas horas de sono. Um parto nunca será fácil.
Ontem passeei com a única companhia que interessa, pelo Porto. Estacionei perto da Ribeira. Descemos para a praça inebriada de sol e com o cheiro a douro e cerveja. Turistas fascinados, casais improváveis e meia dúzia de pedintes para jamais deixar esquecer.
Decidimos atravessar a ponte, voar sobre o rio, sem que se note muito. Um bêbado, perde o controlo ao longo das escadas, e cai. Mais tarde reflecti sobre a minha indiferença. Ao cair, fez um som seco. E abriu de imediato a cabeça. Havia sangue! As pessoas, curiosas mas não muito interessadas em ajudar, fizeram um círculo. “Parece o texto que escreveste há pouco tempo, o «Quinto Príncipio»”.
Passei a ponte, sabendo-o socorrido em breve. Já em Gaia, mais turistas e preços demasiado altos para comer qualquer coisa. Um cigarro com fome enquanto, na outra margem, duas ambulâncias socorriam o homem. Não tive pena. Não tive nada. Absorvi apenas aquele embate como se fosse meu.
Pensei seriamente sobre o dia em que vou morrer. E decidimos voltar ao Porto, a pé, comer qualquer coisa.
Ao andar, senti o desgaste deste corpo, tão recente, tão gasto. Calquei as mesmas ruas que havia já calcado em dias como aquele. Embora com menos sol.
A cidade respira como nenhuma outra. O Porto tem algo de muito especial, por entre o caos dos carros, os carteiristas, os estudantes em festa sem pensarem no desemprego, alguém que chora disfarçadamente num café, sabendo as palavras “acabou tudo” como certas. Os engraixadores que fumam um português suave amarelo e os miúdos a descobrirem o fascinio da liberdade de sairem sozinhos de autocarro até à hora de jantar, em que têm de estar em casa com um sorriso no rosto.
Ou o café onde gosto de ir, porque o empregado atende-me como gosto de ser atendido no Porto. “Cafézinho?”. “Curto, não é verdade?”. “Ora essa, obrigado eu”. “Bom apetite”.
E troco um olhar com um pedinte. Ele pensa que poderá vir pedir-me dinheiro porque me sabe a olhá-lho quando torce a expressão em dores. Em fome. Mas olha-me mais e sabe porque o olho. Sabe perfeitamente o que me vai no olhar, como ninguém o poderia fazer.
Regressamos, agora no carro velho mas pago. Sabendo aquela uma tarde especial. E penso no Axel. Nas saudades que lhe tenho, na falta que me faz.
E hoje, no meu aniversário, passado sozinho, ouço as músicas que mais me dizem. Vou fazer a barba, tomar banho e vestir a minha roupa mais ajustável. À noite não estarei sozinho.
Sinto-me, deveras, miserável e só me apetece dançar.
Tenho passado muitas horas em frente ao espelho, a seco e a alucionogéneos. Não me faz nada bem, mas permite-me a distância suficiente de mim para ver o que vai cá dentro. A tragédia sem coros de saber que nunca vai mudar, que o menos será eterno. Que tudo aquilo que me faz mal será o que irei colocar no corpo, com mais frequência e pressa.
Disse há dois dias que sentia o sentir esgotado. Que não poderia sentir nada daquilo que queria na situação actual. O Porto fez-me perceber que estava errado.
E apesar de o menos nunca passar, de eu ser bem mais fácil de odiar que qualquer outra coisa, continuo de pé, com as minhas magnum e umas calças velhas. E com um casaco novo. Com uma ténue esperança de ver as coisas melhorarem, não demasiado, apenas o suficiente para existirem dias em que sorrio, e outros que não. Hoje, sorrio.

