Antes do Quarto, Parte 4

June 11th, 2010

E por isso mesmo considero que se trata, simplesmente, do conceito mais essencial à existência humana.

Antes do Quarto, Parte 2

June 5th, 2010

E sendo um crente nas leis da natureza, não deverias ceder ao instinto e procurar a felicidade?

Claro. Aumento, sempre que possível o meu bem-estar. Ainda ontem, fui feliz. Mas sei identificar que são bem mais os dias infelizes do que dias felizes. Como diria alguém, somos vicíados em tristeza.

E o que fizeste ontem?

Fui passear para a praia, na hora de almoço. Acordei tarde e comi uma torrada no 27, como diz o Manata. Fumei um, andei na areia e depois, a meio da tarde, comi um bife perto do rio, com o olhar no Porto. Pensei em como tudo era antigo, e como sou agora a personificação dos “homens do futuro” dos antigos residentes deste espaço. Fumei outro e regressei a casa.

E foi um momento feliz?

Ora nem mais. E tu, o que fazes para ser feliz?

Eu não interesso. Voltemos a ti…

Não. Diz lá.

Arte. Refugio-me na arte sempre que não tenho como gastar o tempo.

E porque queres gastar o tempo ou invés de o utilizar?

Ah, era uma forma de dizer. No fundo tento minimizar as coisas más, fazendo algo que me saiba bem.

Reduzir, portanto, a Miséria ao mínimo?

Isso mesmo! E por falar em miséria, parece-me que a procuras. Estou errado?

“Loucura”, Mário de Sá-Carneiro. Acho que te responde muito melhor do que eu a essa questão.

Achas-te louco?

Não. O meu, ou melhor, um dos meus problemas, é precisamente esse. Sou demasiado são, vejo tudo com demasiada clareza. E nós precisamos, talvez como sistema de redução da miséria, de não sentir o peso de toda a verdade a todo o momento. No fundo, uma vez mais, parece-me obra da esplendorosa natureza. O teu corpo, e a sua inteligência fazem-te esse bloqueio, pois, sabendo-te incapaz de lidar com tudo inerente à condição de existir, acabarias por dar um tiro nos cornos. Ao ver tudo claramente, o mais provável é que não te reproduzisses, que não contribuisses de forma saudável para a sociedade, etc etc. E é isso que se quer, tanto pelas regras impostas pela sobrevivência como pelo mundo actual de uma sociedade composta por reis e escravos. Essencialmente, é necessário ser parvo, como uma constante matemática.

Então se é uma regra, porquê vergá-la, lutar contra o que é invencível? Porque não, simplesmente, aceitar como “as coisas são”?

Porque sou um belo de um rebelde. Porque na minha natureza à violência. Há gosto no insulto, no destruir, no fazer mal.

Mas tens coisas boas, que fazem os outros gostar de ti. E suponho que não por esses motivos que apontas.

É como foder, meu caro. Tens alguém a aceitar, livremente, um ataque feroz. E entendes essa ferocidade como desejo, não como agressividade pura e dura. É a velha questão da dualidade e afins. Mas isto é demasiado complexo para uma conversa de sofá. Os filosofos que se encarreguem de debater essas questões matematicamente, até que, com cálculos, eliminem todos os erros.

Mas sei que gostas muito de filosofia. Gostarias de ser um velho ermita?

Não gosto assim tanto de filosofia. Aliás, gosto da história da filosofia. A filosofia, na minha humilde cabeça, é exactamente como a droga. Um pouco faz muito bem, demasiado mata-te.
Quanto ao ermita; não, não vejo. Imagino-me a acabar o resto dos meus dias numa velha casa, numa velha quinta isolada. Até lá, devo manter-me como bicho que só sai à noite. Vivo no meio da floresta, mas saio da toca só quando extremamente necessário. Bonita, esta merda. Quem fizer citações terá que me pagar.

E manteve um olhar sarcástico, de quem foi pago muito poucas vezes. De quem não gosta sequer do vil metal. Pergunto-lhe então:

E gostavas de viver disto, apenas criar?

Como digo sempre; tenho saudades dos mecenas. Tivesse eu tudo o que tenho agora e mil euros por mês para as merdas do costume, e não chateava mais ninguém. Mas sim, respondo à tua questão, claro que gostaria.
Vou mijar, venho já.

Antes do Quarto, Parte 1

June 2nd, 2010

Uma divisão pequena com as persianas baixas e janelas abertas para deixar entrar a leve brisa inexistente numa calorenta tarde. Fios discretamente arrumados por detrás de uma guitarra eléctrica preta que nos observava em silêncio. Sentamo-nos num sofá barato, mas prático. Temos um enorme vidro à nossa frente, que não nos deixa fugir do reflexo constante.

Ele olha a janela, perdido dentro do pensamento e dos raios de luz que expõe com o seu fumo ilegal. É fácil não gostar dele, já que tem a barba por fazer, está de calças apenas e chinelos da Nike. Queixa-se do calor, mas diz que gosta ainda menos do frio. Começamos.

Antes de mais, como te sentes hoje?

Inútil. Não fiz nada o dia todo. E tu?

Bem, obrigado. Gostava de começar pelo que te motiva.

Como esta será diferente das outras, não te sei responder. É algo que faço há tanto tempo que vou, simplesmente, fazendo. Sem que possa contrariar alguma vontade de total inércia que, eventualmente, surja.

Mas não há uma vontade em contar histórias? Em revelar aos outros o que te passa dentro do crânio?

Em última análise, quero que os outros se fodam. Mesmo tu, poderias enfiar agora uma bala nos cornos e a única coisa que me iria preocupar era o sangue na parede e como explicar à polícia porque raio o fizeste. Mas voltando ao que interessa, sim, gosto que me contem uma boa história, gosto tanto de a contar. De fazer sentir, etc.
Não quer isto, no entanto, dizer que me preocupe com os que querem “ouvir” a minha história. Aliás, cada vez mais tenho menos vontade de o fazer.

Porquê?

Porque já contei histórias suficientes, a pessoas suficientes.

Mas não queres sempre mais?

Até quero… [longa pausa] Mas por outro lado, não quero saber. O velho paradoxo de existir.

Mas sem isso conseguirias existir?

Evidentemente que sim. Posso criar histórias para mim, ouvi-las eu e meia dúzia de conhecidos a quem me apeteça mostrar. Ou mesmo só eu.

Sentes algum tipo de desilusão com a pessoas a quem contas essas histórias?

Não sinto nada em relação aos outros. São-me indiferentes. Irritam-me sim, os que julgam que por ouvir uma história possam fazer parte dela. Mas enfim. Estamos programados para ser imperfeitos, é mais do que natural que todos nós façamos merda. Esta-nos no sangue.

Mas existem seres humanos magníficos, que criaram obras soberbas. Alguns deles, sei que admiras.

Sim, bastantes. Mas não é por terem criado uma obra que mudou a história da humanidade, que a marcou, que não poderiam ser uns ranhosos de merda. Nunca imaginaram, os meus pais que adoravam o Carlos Cruz, que este gostava de ter a pila lambida por adolescentes sem ninguém.

Isso não foi provado! [risos]

Quero que se fodam as provas. Qualquer idiota que moleste crianças devia ser torturado e morto. E sim, discurso de trolha mas quero que se foda. Acho a pedofília desprezível, tenha a forma que tiver.

Mas se os outros não te importam, porque te preocupa isso?

Se me preocupasse, faria alguma coisa em vez do simples “deviam morrer todos”. Mas, claro, isso não invalida o nojo que mete.

Aconteceu-te algo a ti?

Não que me lembre. A minha infância foi, em todos os aspectos, a melhor parte da minha existência. Fui derradeiramente feliz até aos 5 anos ou coisa que valha.

O que te impede de ser feliz hoje em dia?

A idade.

Ficas mais infeliz com o passar dos anos?

Evidentemente. É, aliás, o que acontece sempre. Simplesmente, acabei por perceber isso cedo.

Escura Fábrica do Som

May 25th, 2010

E, um regresso à Invicta. Foi numa cave, na Baixa. Escolheu-se uma cave escura, onde o baixo da minha caríssima cúmplice Ira (é seu o nome real, roiam-se) ecoasse de melhor forma para acompanhar os textos.
Reforçar o agredecimento aos que foram à Fábrica do Som, à HellOutro que tão bem organizou este evento, e claro, ao meu caro Charles, que aprimorou a noite com um excelente concerto.
E mencionar ainda André Henriques, que mesmo com a pouca iluminação que pedimos, conseguiu captar fotografias como só ele sabe. Visita www.ahphoto.pt.vu e vê pelos teus olhos.

Em breve irão surgir mais novidades. Até lá.

Expurgação 22 de Maio, Fábrica do Som – PORTO

April 28th, 2010

Está confirmada a primeira Expurgação desde 2006. Após um gentil convite da Hell Outro, irei fazer a primeira parte da noite que serve ao excelente projecto de música (im)popular portuguesa, La Chanson Noire, para apresentação do seu novo Vinyl.

Este evento servirá, também, para apresentar, oficialmente, o livro «Ruína», sendo composto por boa parte de textos presentes no mesmo. Os horários serão cumpridos.


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