Uma divisão pequena com as persianas baixas e janelas abertas para deixar entrar a leve brisa inexistente numa calorenta tarde. Fios discretamente arrumados por detrás de uma guitarra eléctrica preta que nos observava em silêncio. Sentamo-nos num sofá barato, mas prático. Temos um enorme vidro à nossa frente, que não nos deixa fugir do reflexo constante.
Ele olha a janela, perdido dentro do pensamento e dos raios de luz que expõe com o seu fumo ilegal. É fácil não gostar dele, já que tem a barba por fazer, está de calças apenas e chinelos da Nike. Queixa-se do calor, mas diz que gosta ainda menos do frio. Começamos.
Antes de mais, como te sentes hoje?
Inútil. Não fiz nada o dia todo. E tu?
Bem, obrigado. Gostava de começar pelo que te motiva.
Como esta será diferente das outras, não te sei responder. É algo que faço há tanto tempo que vou, simplesmente, fazendo. Sem que possa contrariar alguma vontade de total inércia que, eventualmente, surja.
Mas não há uma vontade em contar histórias? Em revelar aos outros o que te passa dentro do crânio?
Em última análise, quero que os outros se fodam. Mesmo tu, poderias enfiar agora uma bala nos cornos e a única coisa que me iria preocupar era o sangue na parede e como explicar à polícia porque raio o fizeste. Mas voltando ao que interessa, sim, gosto que me contem uma boa história, gosto tanto de a contar. De fazer sentir, etc.
Não quer isto, no entanto, dizer que me preocupe com os que querem “ouvir” a minha história. Aliás, cada vez mais tenho menos vontade de o fazer.
Porquê?
Porque já contei histórias suficientes, a pessoas suficientes.
Mas não queres sempre mais?
Até quero… [longa pausa] Mas por outro lado, não quero saber. O velho paradoxo de existir.
Mas sem isso conseguirias existir?
Evidentemente que sim. Posso criar histórias para mim, ouvi-las eu e meia dúzia de conhecidos a quem me apeteça mostrar. Ou mesmo só eu.
Sentes algum tipo de desilusão com a pessoas a quem contas essas histórias?
Não sinto nada em relação aos outros. São-me indiferentes. Irritam-me sim, os que julgam que por ouvir uma história possam fazer parte dela. Mas enfim. Estamos programados para ser imperfeitos, é mais do que natural que todos nós façamos merda. Esta-nos no sangue.
Mas existem seres humanos magníficos, que criaram obras soberbas. Alguns deles, sei que admiras.
Sim, bastantes. Mas não é por terem criado uma obra que mudou a história da humanidade, que a marcou, que não poderiam ser uns ranhosos de merda. Nunca imaginaram, os meus pais que adoravam o Carlos Cruz, que este gostava de ter a pila lambida por adolescentes sem ninguém.
Isso não foi provado! [risos]
Quero que se fodam as provas. Qualquer idiota que moleste crianças devia ser torturado e morto. E sim, discurso de trolha mas quero que se foda. Acho a pedofília desprezível, tenha a forma que tiver.
Mas se os outros não te importam, porque te preocupa isso?
Se me preocupasse, faria alguma coisa em vez do simples “deviam morrer todos”. Mas, claro, isso não invalida o nojo que mete.
Aconteceu-te algo a ti?
Não que me lembre. A minha infância foi, em todos os aspectos, a melhor parte da minha existência. Fui derradeiramente feliz até aos 5 anos ou coisa que valha.
O que te impede de ser feliz hoje em dia?
A idade.
Ficas mais infeliz com o passar dos anos?
Evidentemente. É, aliás, o que acontece sempre. Simplesmente, acabei por perceber isso cedo.

