Além Tédio

Nada me expira já, nada me vive – 

Nem a tristeza nem as horas belas. 

De as não ter e de nunca vir a tê-las, 

Fartam-me até as coisas que não tive. 

Como eu quisera, emfim de alma esquecida, 

Dormir em paz num leito de hospital… 

Cansei dentro de mim, cansei a vida 

De tanto a divagar em luz irreal. 

Outrora imaginei escalar os céus 

À força de ambição e nostalgia, 

E doente-de-Novo, fui-me Deus 

No grande rastro fulvo que me ardia. 

Parti. Mas logo regressei à dor, 

Pois tudo me ruiu… Tudo era igual: 

A quimera, cingida, era real, 

A propria maravilha tinha côr! 

Ecoando-me em silêncio, a noite escura 

Baixou-me assim na queda sem remédio; 

Eu próprio me traguei na profundura, 

Me sequei todo, endureci de tedio. 

E só me resta hoje uma alegria: 

É que, de tão iguais e tão vazios, 

Os instantes me esvoam dia a dia 

Cada vez mais velozes, mais esguios…

Mário de Sá-Carneiro

Um Deus cansado [de] ser Deus em vão

Um Deus cansado [de] ser Deus em vão

Farto da gente em cuja companhia

Ia da suja noite ao porco dia,

Para não ser obscuro — o Deus cristão,

O Deus do Cristianismo, esse, uma vez

Quebrando essa apatia em que repousa,

Ou repousava, (…), fez …

Mas fez ele alguma vez alguma coisa?

Para fazer alguma coisa

E não passar a eternidade em branco

Fez o João Franco.

Depois, como a paciência não lhe sobra,

(Que o Cristianismo não o deixa em paz)

Deu um golpe de vista à sua obra,

E zangou-se; já tenho água salobra

Na cabeça: de criar sou afinal capaz.

O último que criei foi Adão

Deixei ao tempo o resto e foi mau para mim.

Em lugar de criar qualquer novo João,

Lá fui ressuscitar Caim.

14-2-1910

Fernando Pessoa

O Rei português que serrava padres ao meio

Rei de Portugal por uma década, Pedro I ficou conhecido como “o Justo”, “o Cruel” e “o Justiceiro”, isto porque era de seu costume passear por Portugal levando, muitas levas pela própria mão, justiça. E foi precisamente o que fez a um paróco acusado de violar uma mulher.

Os cronistas fazem menção a um defeito de gaguez e, no foro psíquico, a “paixões exaltadas e violentas, cóleras explosivas e perversões várias”; é igualmente caracterizado como um amante da festa e da música, cantando e dançando por Lisboa ao som de “longas” com os populares.

Pedro I será mais conhecido por ter mandado arrancar o coração dos homens que assassinaram a sua amante Inês de Castro e por supostamente ter exigido que beijassem o seu cadáver estando ela sentada no trono. No entanto, reza a lenda que foram muitos mais os episódios de violência.

Em Santarém, por exemplo, depois de saber que um filho teria atacado com uma faca o pai, o rei fez chamar toda a família. Não acreditando que um filho legítimo pudesse fazer tal coisa ao seu pai, lá acabou com a confissão da mulher dizendo que teria sido violada por um frade confessor.

No dia seguinte, D. Pedro foi ouvir missa na igreja onde em tempos ocorrera a violação. Concluída a cerimónia, mandou chamar o religioso e mandou meter o violador num caixote e… serrá-lo ao meio.

Ainda com o Clero, ficou famoso um episódio com o Bispo do Porto. Constou a D. Pedro, sem ter provas, que o prelado mantinha relações íntimas com uma mulher casada. Tanto bastou para que entrasse pelo paço episcopal e, pegando no chicote, o punisse à chicotada dentro da igreja.

De outra vez, ao saber que uma mulher enganava o marido, condenou-a à morte. E de nada valeu ao enganado implorar de joelhos o perdão da esposa, que decerto amava. O rei tinha decidido, estava decido.

E o mesmo acontecia a quem lhe era próximo. Segundo Fernão Lopes o rei teve uma assolapada paixão pelo escudeiro Afonso Madeira, ao qual “amava mais do que se deve aqui dizer”.

Para mal dos seus pecado, o escudeiro arranjou uma amante de nome Catarina Tosse. Ao descobrir, o rei “mandou-lhe cortar aqueles membros que os homens em maior apreço têm, de modo que não ficou carne até aos ossos que tudo não fosse cortado”.

Afonso, segundo Lopes, foi tratado, “curou-se, engrossou nas pernas e no corpo e viveu alguns anos engelhado de rosto e sem barba e morreu depois de sua natural morte”.

Versos Íntimos de Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!